Fragmentos de uma alma que busca aprender com tempo.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Da série: coisas que gostaria de ter escrito #2

PRETÉRITO IMPERFEITO ou SEMIBREVE

Não era tarde
Cedo também não era
Embora 'inda não fosse tempo

Não permitindo o relógio geral
...o anacronismo de que são feitas as almas...
partiu-se pois
o que é em nome do que deve ser

Não seja a Lua
Satélite de toda noite
Puro e só
Ciclo inalcançável

Nem seja a Terra
Romântico Saturno
de alianças intocáveis

Não sejam descobertos os mistérios (?)
Não seja a filosofia vã (?)
Sim.
Permita-se a Via Láctea!

E que por ela possa brincar um anjo
Em piruetas e cânticos de amor que
Por hora
Exercitam o "adeus!... olá!"
Oferecido ao astro que o convida a morar
Na amizade de sua luz adversa

Assim repousa o último verso.

Não fosse o relógio

Não fosse o relógio
Que marca o tempo de não ser dois

Não fosse o relógio
Que marca o tempo de não ser há mais tempo

Não fosse o relógio....

Eu te teria
Como tenho agora na minha eternidade imaginária

Eu te beijaria
Como me beijam os infinitos espasmos fugitivos da tua ausência

Eu te amaria...
...Perdidamente...

Eu me perderia das quantidades e direções circulares
Não fosse o relógio

Eu seria perdoada pelas marcas digitais que te habitam
E das que me habitarão
Não fosse o relógio

Poderíamos nos levar a confins do espaço
Houvesse ainda esta regra e medida
Não fosse o relógio

Quem sabe até tu me amarias..
..Então..

E, certamente, poderíamos tomar um instante por eterno
Como tomar por verdadeiro o repouso de uma linha...

Não fosse o maldito relógio

Como pulsa este débil mental no meu cérebro
A querer criar estratégias de fuga contra a tua presença nas minhas veias
A seduzir meu coração numa ilusão infinda
Pior: a uma ilusão infinda

Se... se... se.... se...
Se eu soubesse como seria bom....
Faria tudo de novo

Se... se... se...
Se eu soubesse como seria... bom...
Faria tudo melhor!

Não fosse o relógio
Este poema seria outro

Ao amor não seriam oferecidas palavras advindas da saudade
Não seria a poesia da ausência

E a esta situação
Que a realidade insiste chamar de sonho
Não mais se deveria a árdua tarefa de lapidar os gumes da palavra
Ilusão

Porque a esta música que
Sim, toca!
E portanto ordena o átimo que
Sim, se cante!
Sim, se dance!
Não mais caberia a alcunha de pretérito imperfeito

Mas a isto
Que eu deveria deixar escrito
E entregar-te então sem culpa
Dar-se ía o nome de "Segundo Presente"
Onde provavelmente jamais cogitaríamos rescrever uma linha.

Mas o tempo existe.
Antes
Durante
Depois de nós
Ele existe

Então escreva-se ainda o que se pode ver com o agora:

Não era tarde
Cedo também não era
Embora 'inda não fosse tempo

Era
Mas era de um ser proibido
Então foi dirigido para que tivesse sido
Foi
Esquecido
Apagado
Perfeito
Gramatical
Poesia onde a palavra não cabe
Quase dança
Quase música
(Um) Quase eterno
Semibreve.


Alessandra Maestrini

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