Num belo
domingo de outubro do ano de 2009, acordei ansiosa. Difícil de acreditar que,
após longos anos e, diga-se de passagem, uma infância frustrada, eu finalmente
iria conhecer meu primeiro cachorro.
Poucas
vezes eu, que sempre tive um adorável relacionamento com minha cama nas manhãs
de domingo, perdia meu sono e levantava antes das 8 da manhã, salvo em algumas
manhãs de corridas de formula 1. Mas nesse dia, como que por um milagre divino,
lá estava eu, de pé e pronta para o tão esperado encontro às 7:30hs.
Saímos eu e minha mãe, na saudosa Parati branca ano 93 e, após
alguns minutos, chegamos à casa de uma simpática jovem que acolhera em seu lar
uma cadela de rua prenha que dera a luz a nem mais nem menos que doze filhotes,
dos quais apenas uma era fêmea.
Numa caixa, ao lado da porta da sala, encontramos os 12
amontoados uns aos outros, na tentativa de se aquecerem. Pensei: como escolher
o cão certo em meio a tantos filhotes lindos e graciosos? Foi então que eu vi,
escondido ao monte que se aproximava de minha mão dentro da caixa, um filhote
tímido e encolhido com suas duas manchinhas amarelas sobre os olhos, o pêlo
negro como os demais e as patas amarelas e brancas. Peguei-o e, cuidadosamente,
trouxe-o para junto do peito e aí, foi amor à primeira vista.
Depois do primeiro encontro veio o dilema: qual será o nome do
novo membro da família? A principal imposição da matrona era a de que ele não
poderia ter nome de gente, a minha era nada de Totó, Rex ou Dog.
Passado as restrições, começamos a pesquisa, que foi desde o panteão egípcio
até o nórdico, com as histórias de seus deuses de Asgard e
seus banquetes regados a hidro mel. Entre os finalistas
elegemos Loki (com uma forte campanha de minha parte).
Uma semana depois eu o levei para casa. E como foi dolorosa a
primeira noite, com aquele chorinho doído de quem sentia saudade da mãe, mas
aos poucos graças aos truques de tia Fernanda, a expert em
cães da família, as noites em claro se acabaram e com elas, foi-se embora
também minhas manhãs de sono aos domingos, já que quando não eram os uivos
traduzidos em "vocês me abandonaram aqui fora!" eram o barulho das
patas arranhando a porta do meu quarto ou ainda, as investidas sobre a cama na
tentativa de lamber meu rosto.
Começaram então, os primeiros ensinamentos: senta, deita, rola,
dá a pata, aí não pode, não pule nas visitas. Ah, as
maravilhas que um pedaço de pão podem fazer! E com isso, aos poucos, até quem
era contra a presença do novo inquilino se rendeu a famosa carinha de cão pidão,
que mais tarde conquistaria até mesmo os vizinhos, que elegeram Loki como o
cachorro da rua Rio Grande.
O que
eu não imaginava, é que ao cuidar desse pequeno ser em desenvolvimento, estaria
ao mesmo tempo tratando minhas feridas. Cuidando de voltar a enxergar o mundo
com otimismo e aproveitar a felicidade presente em cada momento.
É
curioso como uma bolinha de pêlos consegue causar tamanho rebuliço! E mais
curioso ainda, é como essa mesma bolinha é capaz de te fazer relembrar de
conceitos antiquados como lealdade e amizade.
Tomando
emprestada a fala de Marley e Eu: “Um cão não se importa se você tem a melhor
casa ou o carro do ano, para ele um graveto é o suficiente. Dê seu coração a um
cão e ele lhe dará o dele. De quantas pessoas você pode dizer isso? Quantas
pessoas fazem você se sentir extraordinário?”.
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